VELHOS TANQUES, VELHOS DIAS
(Não sendo em Sete de Setembro tanques nas ruas assustam e produzem suspeitas)
Quando Juscelino transferiu a capital para Brasília, dizia-se, em tom de chacota, que ali, ele e os futuros presidentes ficariam a salvo dos tanques da Vila Militar. Os nossos velhos blindados fumarentos, as obsoletas sucatas que nos eram liberadas pelo humilhante acordo militar com os Estados Unidos, revogado pela visão de estadista do presidente general Ernesto Geisel.
Quando, no século dezoito, o general prussiano Gerhard Scharnhost, fez nascer a ideia da criação do Estado Maior, e à sua frente colocou oficiais altamente capacitados, a Prússia pais que não era dono de um exército, mas o exército é que era seu dono, ele abriu caminho para que, depois, Frederico o Grande fizesse do seu país agrário dominado pela casta latifundiária dos Junkers, cercado de inimigos, com uma geografia que o tornava vulnerável e escassa população, se transformasse numa potência europeia.
O conceito de Estado Maior evoluiu, a partir de teorizações formuladas por grandes estrategistas, e modernizou-se, com o aperfeiçoamento da democracia, principalmente nas grandes potências do ocidente.
A ideia militarista absorvida pela Prússia, onde o Estado Maior desempenhava quase o mesmo papel de partido único nas ditaduras, foi substituída, dando lugar ao Estado Maior concentrado na meta de potencializar a capacidade de defesa do país, e, para isso, traçando a estratégia mais ampla do preparo e equipamento da tropa e sintonia entre as forças, também interagindo com as instituições politicas e a estrutura econômica, e ainda mais: analisando, permanentemente, o clima psico-social tendo em vista evitar a desagregação, e cenários tanto internos como externos negativos, afetando a imagem do país, e causando insatisfação social.
Com esse peso de responsabilidade institucional, seguindo a melhor doutrina que embasa os Estados Maiores em países democráticos, as forças armadas não podem ter compromissos com um governo, não podem envolver-se em querelas partidárias ou ideológicas, muito menos emitir opiniões sobre como deve ou não deve ser o sistema de votação.
Uma instituição de Estado que é, indubitavelmente um poder armado, terá de transitar íntegra entre governos, traçar as diretrizes da defesa nacional, seja em governos de centro, de esquerda ou de direita, sem preferências por nenhum deles. E assim devem permanecer, a não ser que se configure um caso extremo do conluio de um governo com potência estrangeira, e pondo por traição em risco a integridade e a soberania do país. Mas isso, mesmo que ocorra, teria de seguir os cânones constitucionais, não cabendo apenas à instituição armada decidir qual o momento e como deveria agir. Mas, para ele terá de estar pronta.
Quando se pensava que a fumaça dos velhos tanques da Vila Militar, não mais seria sentida nas ruas das cidades do país, a não ser no Sete de Setembro, quando os blindados são calorosamente aplaudidos, mesmo fumegando, eis que surge um bizarro acontecimento, em que esses tanques, ao lado de viaturas outras, atravessam em hora e momentos impróprios a Praça dos Três Poderes, para que, de um deles, desça um militar e suba a rampa do Planalto, onde, sobranceiro estava o Chefe Supremo das Forças Armadas, rodeado por ministros e chefes militares, alguns deles constrangidos, e dirija-se ao presidente para entregar-lhe, o que? Nada mais do que um simples convite.
A cena foi devastadora para a imagem do Brasil no exterior, fomos reduzidos à condição de “república de bananas”, e contribuiu apenas para acirrar ainda mais essa guerrilha político-ideológica que divide desgraçadamente os brasileiros, agora separados por uma cortina de odiosidades.
Ainda não saímos da pandemia, que foi, aliás, muito além da “gripezinha”, e mostrou-se imune aos apregoados milagres de remédios estranhos, prescritos pelo presidente, encarnando, talvez, o espírito de algum curandeiro, ou charlatão maligno.
O desejável equilíbrio fiscal está sendo demolido, para assegurar a gastança com finalidades meramente eleitoreira, a inflação emite perigosos sinais de que após vinte e sete anos desaparecida poderá estar retornando. Depois dos tanques fumarentos em Brasília, fica difícil imaginar que algum investidor estrangeiro queira aplicar seus recursos no Brasil, isso, apesar de ser este nosso prodigioso país, aquele que poderia ser o mais atrativo roteiro para os dólares em profusão que circulam pelo mundo globalizado.
Poderemos outra vez perder o bonde da economia mundial, no momento exato em que o governo Biden vai injetar no país a fabulosa soma de um trilhão e quinhentos bilhões de dólares. Haverá um salto na economia americana, um ainda maior na chinesa, outro na Europa, e o Brasil, coitado, condenando a ficar apenas como desalentado espectador.
Este é o quadro real que deveria preocupar o nosso Estado Maior das Forças Armadas, inclusive, porque, a continuar o que agora ocorre, a sempre sonhada e imprescindível modernização das nossas forças, estará sendo adiada, e iremos continuar com os tanques fumarentos, que podem fechar um Parlamento ou até mesmo o STF, mas, não estão a altura do que deveria ter um país, que, menos pelos dirigentes, e muito mais pela sua potencialidade, já deveria estar, há algum tempo, entre as cinco maiores economias do mundo, com instituições democráticas estáveis e seguras, e tendo um aparato de defesa compatível com o tamanho do território, e da pujança econômica.
O cenário agora que vivemos, é aquele dos velhos tanques fumacentos, dos velhos dias de intolerância e obscurantismo.
Que possamos, com sabedoria e equilíbrio, nos livrar do que seria pior: a fumaça da pólvora.
Luiz Eduardo Costa, é jornalista, escritor, ambientalista, membro da Academia Sergipana de Letras e da Academia Maçônica de Letras e Ciências. Além desse blog, é colunista do Portal F5 News.
